Wednesday, April 08, 2009

Um maracanã eletrônico

Cinema moderno?; pós-moderno? pós-contemporâneo? documentário ou ficcção? – moderno e pós-moderno, fim do cinema como conhecemos, como nos relacionamos, como se comportar, como entender, qual o sentido – tem sentido? –, precisa ter um sentido?

Glauber cria uma sinopse profética e declamatória: o quanto isso está no filme e o quanto está no espectador? O quanto é Glauber-diretor, Glauber-espectador, Glauber-ator, Glauber-personagem. Desmaterialização da arte. Desmaterialização do sujeito, do cinema, das formas, da câmera, de tudo. Um cinema que se desmancha. Mas que se renova.

O começo do filme é um nascer do sol. Porque o filme começa depois do crepúsculo, depois que a bomba estourou, que o dia terminou, que o espelho se partiu. A Idade da Terra é a reconstrução desse espelho estético que não busca um fim nem uma origem, mas muitos fins infindáveis e uma origem primitiva, mitológica, criadora, icônica, monumental, afirmação de uma cultura que define o espaço e o tempo, a procura da verdadeira idade da terra, sua história, seu trajeto, sua duração – no entanto, o filme não assume essa teleologia.

A utopia dos heróis, dos Cristos, que se erigem eles próprios os mitos, mas que não passam de ícones fantasmagóricos, lado a lado com a morte, decadentes. Ícones de um cinema que se vê decadente. Se Glauber define o filme como religioso, está no fato da crença acima de tudo. O cinema se encaminha para um novo recomeço a partir de sua morte (representada por danças da morte, texturas, volumes), uma mistura de amadorismo com profissionalismo – Tarcísio Meira no Sambódromo, o ator-Tarcísio e as pessoas comuns, o personagem-Cristo-Colonizador e os figurantes que se transfiguram (mais uma vez o religioso) em seres atuantes, interessados, pessoas-comuns-atores-personagens).


Uma revolução e a crise da imagem; mais uma vez, Tarcísio, e Ana Maria Magalhães, agora na praia do Flamengo, a câmera que não segue vetores, paralelas, profundidade ou equilíbrio, encenação, só a repetição, o cinema como construção, um take após o outro, a claquete, a indefinição do sentido partindo da câmera. Rompe-se um tal paradigma e não se arquiteta outro. A arquitetura fluida, irrestrita, irresposável-responsabilidade. O filme solto no espaço e no tempo, desfragmentado, expelido e recebido. Como dar conta de “A Idade da Terra” e de “Anabazys”? Como dar conta de algo que não é desse mundo?

Serge Daney define como "Um Ovni fílmico, nem mais, nem menos." O OVNI, o alienígea terrestre, embora não-identificado, seja presente (passado e futuro), vivo, pulsante, Eterno.

1 comment:

Mascardo said...

concerto desconsertante...